"No
dia de ontem(09/06) a convite da Comunidade do Logradouro, estivemos reunidos
com Bibi de Nenca, Grimaldo Gondim e demais moradores, amigos e
familiares, para celebrar a sangria do açude do Logradouro, depois da
reforma de sua parede, que contou com a nossa contribuição, da própria
comunidade, do então Prefeito Bibi e seu vice, Grimaldo e demais amigos
e conterrâneos ausentes, e que tem raízes naquela comunidade. Que
embora o reparo tenha ocorrido no final de 2016, somente agora se
festejou devido as chuvas que provocaram a tão esperada sangria,
trazendo esperança e alegria à todos da Comunidade".
A Coluna Prestes transpôs o rio Parnaíba, penetrando no Piauí. E a 18 de janeiro de 1926 atingiu a cidade de Picos, no Piauí, próximo do Ceará, ameaçando assim o Cariri.
O Deputado Floro Bartolomeu, investido pelo Presidente da República com a patente de General, para combater a Coluna Prestes, chegava ao Juazeiro com uma numerosa quantidade de munição, armas, fardamentos e com muito dinheiro no bolso para fazer frente às despesas de uma empreitada dessas.
As restrições que Lampião fizera ao Batalhão Patriótico onde mostrou com suas palavras a falta de disciplina e de um uma escolha de oficiais de comando sem tática, deixou o general desgostoso com ele. Floro Bartolomeu não conseguiu entender até então o que o guerrilheiro mais famoso do Brasil, naquela época, queria dizer e por isso macambúzio veio a relevar a provável ajuda. Quando Floro se convenceu que Lampião tinha razão, mandou logo procurá-lo para entregar-lhe, com a patente de Capitão, um dos comandos de vanguarda do Batalhão Patriótico.
— "Lampião é bandido!" diziam uns.
— "A História” - replicava Floro, “está cheia de bandidos que se regeneraram, tornando-se grandes homens e até fundadores de império e nações”.
A importância dada a Lampião e seus cangaceiros pode ser sentida por quem conhecia por demais suas proezas e suas táticas de guerrilheiro. Um guerrilheiro bem treinado, vale por cem soldados imberbes ou despreparados. O pequeno bando de Lampião, de cerca de 50 homens valia por 5.000. Fico impressionado, pelas táticas desse homem que nunca veio a ter um preparo militar de caserna. Era guerreiro nato como muitos da história humana.
Era um cabra destemido e valente. Não significando que em algumas fugas do combate, mereça o adjetivo de covarde, assim como alguns infelizmente pensam. Essa é a tática de guerrilha usada em diversas partes do mundo. Para um inimigo poderoso, um ataque e um recuo para não perder forças. Apenas quando Lampião sentia que o enfrentamento era possível, tiroteava por diversas horas com seus inimigos.
A política da época dos coronéis do sertão, o usava de diversas formas, tornando-se seu aliado quando se tirava vantagem e mostrando-o como um bandido sanguinários quando isso lhes era de ajuda.
Lampião Regenerado
Somente na mente de um homem voltado para a salvação das almas sertanejas que padeciam pelo abandono do poder público, poderia conceber um plano desses. Padre Cícero já tinha feito que um cangaceiro abandonasse a vida de crimes e enveredado nos caminhos da lei e da ordem, por que não fazia o mesmo com Lampião?
Foi então expedida a ordem de convocação, em cartão oficial, com o timbre do Batalhão Patriótico, Floro assinou e convocou com urgência Lampião. Na casa do padre Cícero foi chamado João Ferreira, que admitiu seu irmão estar pelas zonas do Pajeú ou do Navio. Padre Cícero então escreveu uma carta ao Coronel Né Pereira, da Carnaúba, em Vila Bela, chamando seu filho, como dizia ele, para se render ao patriotismo, combatendo uma força ilegal, que avançava para o Ceará e com intentos de invadir a terra santa do Juazeiro.
João Ferreira, irmão de Lampião, não quis servir de portador daquela convocação e então foi escolhido e incumbido o Tenente Francisco das Chagas Azevedo, comandante da Trigésima Terceira Companhia do Batalhão Patriótico, que ao chegar em seu destino, a fazenda Carnaúba, apresentou-se ao Coronel Né Pereira, que não fez demora, enviando três ou quatro pessoas, por diferentes direções, para ver se encontrava Lampião. De logo, o encontraram. Suspeitando de cilada, recusou Lampião atender ao chamado, tão somente depois que examinou bem a assinatura do Padre Cícero, cuja letra lhe era familiar, é que se decidiu ir ao Juazeiro.
De imediato, Lampião, agora com quarenta e nove homens, se pôs nas veredas, na direção do Cariri, em busca da patente almejada e para atender seu padrinho santo.
Era de manhã cedo, quando Lampião subiu a serra do Araripe. Ia a cavalo com os seus cabras. Mas receoso, deteve-se ele antes de entrar no pequeno povoado chamado Macapá, hoje Jati, que tinha uma força pública comandada pelo Tenente Luís Rodrigues, mandou-lhe uma carta de apresentação e anexou as de Floro e do Padre Cícero.
Após a leitura, o tenente, devolvendo ao portador as missivas, dizendo-lhe que Lampião podia ficar despreocupado, pois não haveria inguirizia e que aquele documento apresentado por ele, era um passaporte legal e que as portas daquele povoado estavam abertas para Lampião e seus comandados.
Às três horas da tarde, entrou o Rei do Cangaço, em Macapá, com seu grupo. Viajando em meus pensamentos, os vejo, e minha alegria de admirador não do bandido que era, mas de um homem que fez sua história e deixou gravado nos corações dos nordestinos, e porque não dizer, do Brasil e do mundo quase todo, na escrita e na tradição boca a boca. Todos montados, firmes e olhando pra frente com seus corpos retesados, garbosos, trotando pomposamente, em desfile como sendo o salvador do povo cearense contra a coluna que queriam destruir as terras de ‘Padim Ciço”. Porte de majestade, o Rei dos cangaceiros ia na frente, em um cavalo que imagino branco, mas que segundo o povo, era ruço. Estava ladeado à sua direita por seu irmão Antônio e à esquerda por seu Lugar-Tenente o cangaceiro Sabino, “os três puxando a fila dupla, marchando de costado, com vinte e três pares de cavaleiros e fechada por Luís Pedro, sozinho.”
Parou a tropa quase que real defronte da casa do Tenente Barroso. Desceram dos cavalos e formando um semicírculo e segurando suas montarias, onde após os cumprimentos, cordiais e de estilo, o “Tenente Barroso passou em revista a tropa lampiônica. Um a um, foram, minuciosa e demoradamente, apresentados por Lampião, os seus guerrilheiros e explicada a origem de seus nomes de guerra: — Antônio Ferreira (seu irmão), Sabino (lugar-tenente), Seu Chico, Maçarico, Aragão, Jurema, Nevoeiro, Pinica-Pau, Tenente, Mormaço, Cobra Verde, Andorinha, Moita-Brava, Açucena, Cuscuz, Luís Pedro, Moreno, Três Pancadas, Três Cocos, Chumbinho, Pensamento, Juriti, Meia Noite, Criança, Cancão, Coqueiro, Sabiá, Chá Preto, Barra Nova, Bentevi, Lasca Bomba, Azulão, Gato Bravo, Beija Flor, Bom Devera, Pai Velho, Maquinista (literato e secretário), Cravo Roxo, Jararaca, Candeeiro e seu irmão Vareda, Serra do Mar, Lua Branca e seu irmão Vinte e Dois, Colchete, Delicadeza, Fogueira, Arvoredo e Cajueiro.”
A maioria dos cangaceiros, cabras acostumados aos combates era pernambucanos. Uns de Vila Bela, outros de Floresta e do Pajeú de Flores. Mais alguns de Triunfo. Tirante Pai Velho sendo o mais idoso, o resto da cabroeira entre 18 e 30 anos de idade. “E com exceção de alguns curibocas e dois negros, os demais de cor branca, ou amorenados. Na residência de uma idosa senhora, D. Generosa, se reuniram Lampião e seu Estado Maior (Antônio Ferreira, Sabino e Luís Pedro) juntamente com os Tenentes Luís Rodrigues Barroso e Veríssimo Alves Gondim (comandante de volante), o sargento Antônio Gouveia e outros agaloados componentes da polícia militar cearense, para uma conversa informal, amistosa e animada, servida de galinha assada e regada a vinho cerveja. Lá fora, cangaceiros, soldados e povo em perfeita harmonia. Quase consumido o estoque de cigarros, fósforos, bolachas, vinho e perfume da bodega do comerciante Moisés Bento, que gostava de "despachar" os cangaceiros, fregueses esses bons pagadores.”
Lampião não gostava de dever a ninguém, exceto sua ira revoltada contra o sistema que o oprimia e por isso requisitou, pagando corretamente, todas as galinhas dos quintais para mantença de seu bando. Depois, no meio da rua, ordenou Lampião ao sanfoneiro tocasse "Mulher Rendeira". E, enquanto improvisava loas, os cabras, em roda formada, xaxavam e cantavam o famoso estribilho:
— "Olê Mulé Rendêra , ô, mulé rendá, Chorô pru mim num fica Saluçô vai no borná"
“A vibração dos acordes desta canção guerreira contagiou os militares e todo o povo. De súbito, entusiasmados, todos imitavam os alegres visitantes...
Horas inesquecíveis, de alegria e festa, as que Lampião veio trazer àquele pedaço de sertão perdido no Cariri! Durante as despedidas, entregou Lampião ao Tenente Veríssimo um bonito revólver niquelado "Chimite" ("Smith and Wess"), para ser oferecido, como presente, a seu amigo ausente - Capitão Honorato dos Santos Carneiro, da polícia do Ceará.
Prosseguindo na viagem, passou por Porteiras, indo pernoitar no sítio Laranjeiras, cujo proprietário, Antônio Pinheiro, fez troca dos animais cansados e inferiores do grupo, fornecendo outros melhores.”
Daí Lampião e seu bando, partiram como salvadores da pátria e com peitos estufados de orgulho patriótico, entoavam o hino "Olê Mulé Rendêra , ô, mulé renda...”.
O Sonho de um Sonhador
Parece que eu estava lá. Em minha mente buliçosa, viajava antes que um piscar de olhos estalasse, vendo aquela alegria contagiante. Lembrou-me, mal comparando, e que Deus me perdoe, do Rei Davi, quando voltava à Jerusalém com a Arca da Aliança, recuperada dos Filisteus, onde o povo cantava e tocava seus instrumentos cantando e louvando a Deus por Davi a ter recuperado.
Marchei junto com eles sem que eles me notassem. E notei a satisfação no rosto de Virgulino Ferreira da Silva, que queria se ver livre de Lampião, e esta era sua oportunidade. Queria ser uma pessoa comum. Era seu sonho e eu no meu sonho, entrava no seu sonho. Queria criar seu gadinho e ter sua roça de algodão e macaxeira. Talvez até mesmo em seus sonhos proféticos, tenha visto sua Maria Bonita, esperando por ele, para criarem em paz os seus filhos.
Infelizmente os homens de poder e os invejosos, não deixaram, uma pena...
Muito bom rever familiares, muito melhor a chuva. A ultima vez da sangria foi em 2013. Agora 09 de junho de 2018, a festa. Conversas sobre politica futebol e invernos foi o prato do dia/tarde entre tira-gostos gostosos. Há exatos cinco anos a comunidade de Logradouro/Campo Grande voltou a fazer festa em familia com a sangria do grade Açude construido pela comunidade. Muitos dos que se foram gostariam de está vendo a maravilha das águas somados à alegria dos que estavam presentes.
Presente a parentela das familias Marques Leal,
Gondin, Freitas, Souza, Oliveira Justino e a familia de Antonio Lucas com sua filha Andreia e esposo.
Estiveram lá expoentes da politica campograndense, o ex-prefeito Bibi de Nenca e o seu ex-vice Grimaldi, o vereador Nilson Junior esposo da secretária de segurança do estado delegada Dra. Sheila Freitas de Souza. Esses exercem uma liderança entre os que ali residem.
O empresario Flavio Marques Leal foi o organizador oficial do evento com amigos que reuniu familiares para festejar a sangria.
Eu estive lá. Foi bom conversar com o vereador primo Nilson Junior, Bibi de Nencam Grimaldi e seu irmão, seu Antonio Lucas, as primas Zélia e Neuza, Fabio Marques e familia, Lucia Leal, filhos de tio Vidal Marque Leal, filhos do primo Durval Marques Leal, amigo Reginaldo, Farrista.
Palavras de Nilson júnior, filho de Nilson Serapião:
No
dia de ontem a convite da Comunidade do Logradouro, estivemos reunidos
com Bibi de Nenca, Grimaldo Gondim e demais moradores, amigos e
familiares, para celebrar a sangria do açude do Logradouro, depois da
reforma de sua parede, que contou com a nossa contribuição, da própria
comunidade, do então Prefeito Bibi e seu vice, Grimaldo e demais amigos
e conterrâneos ausentes, e que tem raízes naquela comunidade. Que
embora o reparo tenha ocorrido no final de 2016, somente agora se
festejou devido as chuvas que provocaram a tão esperada sangria,
trazendo esperança e alegria à todos da Comunidade.
Os
votos brancos e nulos nessas eleições, aferidos pelas mais recentes
pesquisas do Instituto Datafolha, continuam em patamares recordes,
alertam os diretores desse instituto Mauro Paulino e Alessandro Janoni.
Eles citam, por exemplo, que no cenário onde o ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), que está detido na Polícia Federal de Curitiba, é
excluído da corrida presidencial,brancos e nulos superam os de Jair
Bolsonaro (PSL).
Apesar de liderar a mostra de intenções de voto no primeiro e no
segundo turnos, o ex-presidente Lula vem perdendo fôlego após sua
prisão, na pesquisa espontânea, com uma queda de sete pontos porcentuais
nessa mostra, com relação ao período em que ainda desfrutava de
liberdade.
Os diretores do Datafolha destacam que o único índice que cresceu na
pesquisa espontânea reforça justamente a tese da crise de representação:
os que dizem logo no início da entrevista que votarão nulo ou em
branco. E hoje essa é a resposta imediata de cerca de um em cada quatro
brasileiros (23%).
Quando Lampião e sua horda de cangaceiros estiveram no Rio Grande do Norte, entre os dias 10 e 14 de junho de 1927, com o objetivo de atacar Mossoró, um personagem deste drama entrou na história quase sem querer, tornando-se por algum tempo um estafeta do “Rei dos cangaceiros”. Este personagem foi o motorista Francisco Agripino de Castro, conhecido em Mossoró como “Gatinho”.
Francisco Agripino de Castro, o “Gatinho”
Nascido em 1905, “Gatinho” era um jovem de boa índole, simples, que buscava na profissão de motorista uma nova perspectiva em sua vida. Estava ainda na fase de aprendizado, sendo seu mestre o motorista João Eloi, conhecido como “João Meia-Noite”. A prática ocorria em um Chevrolet 1925, cujo proprietário era o Sr. Francisco Paula, para quem “João Meia-noite” trabalhava.
Seja por esperteza, medo ou desinformação, naquele dia 12 de junho de 1927, um domingo, João cedeu o veículo para “Gatinho” fazer o serviço que surgisse e ganhar mais perícia na condução.
“Gatinho”, como todos em Mossoró, estava apreensivo com a notícia da invasão do bando ao Rio Grande do Norte, os boatos sobre o tiroteio ocorrido no dia 10 de junho, no lugar Caiçara (próximo ao atual município potiguar de Marcelino Vieira), as muitas informações desencontradas, a movimentação para a defesa da cidade, a fuga dos moradores e outras situações que alteraram aquela inesquecível semana na “Capital do Oeste”. Mesmo assim “Gatinho” estava pronto para realizar qualquer viagem.
O fazendeiro Antônio Gurgel e framiliares
Na tarde daquele dia, o carro de Francisco Paula foi contratado pelo comerciante e fazendeiro Antônio Gurgel do Amaral, um rico proprietário que possuía uma fazenda no lugar “Brejo do Apodi”, próximo a então vila de “Pedra de Abelha” (atualmente município de Felipe Guerra). Gurgel estava preocupado com sua esposa, pois a mesma se encontrava na sua fazenda e desejava trazê-la a Mossoró.
Por volta da uma da tarde, os dois seguiram direção sul.
A viagem prosseguia tensa, como não poderia deixar de ser diante da situação reinante. O veículo trafegava por uma estrada irregular, não mais que um caminho estreito, que mal dava para um carro pequeno seguir.
Por falta de conhecimento ou nervosismo, “Gatinho” errou o trajeto e levou seu passageiro para o lugar Apanha Peixe, a 13 léguas da vila de São Sebastião (hoje município de Governador Dix-Sept-Rosado). Nas proximidades se localizava a fazenda “Santana”, de propriedade de Manoel Valentim, que neste momento tinha a sua residência invadida e era prisioneiro do bando de cangaceiros de Lampião.
Eram mais ou menos quatro horas da tarde quando “Gatinho” ouviu tiros que não sabia de onde vinha. O motorista se protegeu como pode, Antônio Gurgel ordenou a parada do veículo. Nove balaços de mosquetão teriam atingido a carroceria do veículo.
Estado de abandono da antiga casa grande da Fazenda Santana, para onde o fazendeiros Gurgel foi levado pelo cangaceiro Sabino e ficou frente a frente com lampião.
Ao levantar a cabeça, “Gatinho” viu um cangaceiro com um fuzil apontado para ele. Era um moreno forte, de estatura elevada, que por esta razão tinha a alcunha de “Coqueiro”.
Este cangaceiro, junto com outros membros do bando, mandou o motorista e o passageiro renderem-se e passou a rapinar os seus pertences. Do fazendeiro Gurgel foram arrecadados uma aliança, um par de óculos, uma caixa com cinquenta balas de rifle Winchester calibre 44, um conto de réis e uma pistola tipo “mauser”. Provavelmente uma pequena pistola com calibre 7,65 m.m., das marca “FN” ou “Colt.
O cangaceiro “Coqueiro” exultava a todo o bando de facínoras a prisão de um “coronelão de muito dinheiro”.
Depois da “coleta”, os dois prisioneiros foram levados à presença de Massilon Leite e Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”.
Junto ao líder dos bandidos estava José Tibúrcio e Fausto Gurgel, irmãos de Antônio Gurgel, que tiveram seus resgates estipulados em um conto e quinhentos mil réis. O bandido Sabino, depois de uma rápida palestra com o novo prisioneiro, estipulou a vultosa quantia de quinze contos de réis para a sua liberdade. Sem condições dos prisioneiros ponderarem, ficou decidido que o irmão Fausto retornaria Mossoró com “Gatinho”, para buscar a dinheirama.
E era realmente muito dinheiro.
Para se ter uma ideia deste valor, vamos observar como exemplo a edição de 18 de junho de 1927, do jornal “A Republica”, onde se encontra um balanço financeiro, listando as rendas postais apuradas em cada uma das agências dos correios existentes no Rio Grande do Norte em 1926. Na progressista Mossoró de então, que possuía Banco do Brasil, um forte comércio de algodão e até funcionava uma Alfândega, os Correios e Telégrafos apuraram em todo aquele ano 10.255$300 (dez contos, duzentos e cinquenta e cinco mil e trezentos réis).
Diante da quantia pedida, Antônio Gurgel preparou uma carta para ser entregue a seu cunhado Jaime Guedes, então gerente da agência do Banco do Brasil em Mossoró e pessoa certa para lhe salvar desta situação.
Neste meio tempo, “Gatinho” realizava pequenas voltas pela propriedade, com o veículo cheio de bandoleiros. Muitos destes cangaceiros estavam tendo o seu primeiro contato com um automóvel. A brincadeira acabou quando a chamado de Lampião, o motorista e Fausto Gurgel receberam a missão de levar a carta de Antônio Gurgel para Mossoró.
O “Rei do cangaço” exigia dos dois “estafetas” a maior discrição sobre o caso, se não Antônio Gurgel pagaria com a vida.
No retorno, “Gatinho” e Fausto encontraram dois conhecidos que pediam condução na beira do caminho. Eram Alfredo Dias e Porcino Costa, que se dirigiam a Mossoró.
Buscando informações com os sertanejos, procurando a memória da passagem do bando de lampião pelo Rio Grande do Norte em 1927.
Achando estranho o fato de Fausto estar àquela hora de retorno a “Capital do Oeste”, Dias inquiriu-o sobre o que estava fazendo? De onde viam? Se sabiam notícias dos cangaceiros? Fausto no inicio desviou o assunto, mas diante da insistência cedeu e narrou o ocorrido e o suplício por que passava seu irmão.
Um exemplo de como a cidade de Mossoró preserva a memória do ataque de Lampião a esta cidade.
Ao chegarem à vila de São Sebastião, atual município de Governador Dix-Sept-Rosado, os dois viajantes pediram para descer do veículo e seguiram para a estação ferroviária, onde deram um alarme para Mossoró através de um telefone existente neste local.
“Gatinho”, para desespero de Fausto, saiu a divulgar pela vila a notícia alarmante; “-Se prepare todo mundo que os cangaceiros vão invadir”. Cinquenta anos depois, em um depoimento prestado ao jornal dominical natalense “O Poti” (edição de 13 de março de 1977), Francisco Agripino afirmava que poucos em São Sebastião lhe deram crédito.
O motorista e Fausto seguiram para Mossoró. Por volta das oito e meia da noite, encontraram-se com Jaime Guedes e o prefeito Rodolfo Fernandes, onde foram narrados os fatos e entregue a carta de Gurgel. O prefeito só ficou satisfeito em relação à veracidade da notícia quando viu a lataria do Chevrolet perfurada de balas.
Nota de jornal sobre o ataque de Lampião a Mossoró.
Nesta mesma noite de 12 de junho, “Gatinho” ainda ajudou na defesa de Mossoró, transportando fardos de algodão de depósitos existentes na cidade, para pontos que seriam utilizados como baluarte de defesa.
“Gatinho” não estava em Mossoró no dia do assalto, fora contratado para seguir para Fortaleza,às nove da manhã de 13 de junho, com a esposa e dois filhos do médico Eliseu Holanda. Segundo o motorista, depois deste episódio, não mais teve notícias se este médico e sua família retornaram a Mossoró, “nem a passeio”.
Igreja de São Vicente de Paula, histórico palco de resistência dos mossoroenses aos ataques dos cangaceiros de Lampião. Anualmente neste local acontece uma encenação do fato dentro do calendário cultural do município.
Em Fortaleza, o “estafeta de Lampião” passou alguns dias esperando a situação se acalmar.
Muitos anos depois, em sua residência na Praça Redenção, 183, na tranquilidade de sua velhice, “Gatinho” narrou ao repórter Nilo Santos, de “O Poti”, as suas inesquecíveis lembranças da meia hora que passou entre o bando de Lampião. Para ele, muitos dos cangaceiros eram demasiado jovens para aquela vida, “umas crianças” ele afirmava. Na sua memória Massilon marcou como um sujeito feio, carrancudo, grosseiro, ignorante, “que dava até medo em olhar para ele”. Lampião lhe deixou uma impressão positiva, apesar da fama, “parecia um sujeito educado, pelo menos neste dia não estava furioso”. Sobre “Coqueiro”, o condutor o considerava um moreno forte, bem disposto e “bastante alto para justificar o apelido”. Quando o cangaceiro “Mormaço”, foi detido, informou as autoridades que “Coqueiro” havia deixado o bando no Cariri e seguira para o Piauí, entretanto, segundo o pesquisador Raimundo Soares de Brito, este cangaceiro foi morto pela polícia cearense, no lugar “Cruz”, aparentemente no município de Maranguape.
Francisco Agripino de Castro se tornou um profissional do volante respeitado, era conhecido como uma pessoa calma, amigo de todose faleceu em 16 de março de 1991.