O deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) disse a amigos que pode “derrubar o governo” se contar tudo o que sabe. Em conversas reservadas, Cunha afirmou que foi “abandonado” pelo Palácio do Planalto e ameaça dar o troco. “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”, costuma dizer ele.
Há cerca de duas semanas, Cunha chamou aliados da Câmara para uma reunião em sua casa. Queria saber os deputados que, apesar de “ajudados” por ele, iriam traí-lo. Pela lista apresentada, 90 dos mais de cem que Cunha se gabava de manter ao seu lado votariam pela cassação. Um dos participantes do encontro deu o seguinte recado aos colegas traidores: “Preparem os capacetes porque vai chover canivete.”
Cunha é conhecido por fazer dossiês contra adversários com riqueza de detalhes. Nos últimos dias, ele teria feito chegar ao Planalto que está disposto a envolver o secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), Moreira Franco, em irregularidades na Caixa Econômica Federal. Moreira é amigo do presidente Michel Temer e sogro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
Ao menos três discípulos quiseram saber de Cunha, às vésperas da votação sobre seu destino, se ele se lembrava de todas as articulações promovidas para ajudar colegas e prejudicar rivais. Na conversa houve referência à PEC da Bengala, a emenda constitucional que tirou das mãos da então presidente Dilma Rousseff, no ano passado, o poder de indicar cinco ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF).
A sondagem sobre a viabilidade da PEC chegou a ser discutida em um jantar na residência oficial da Câmara. O peemedebista teria dito: “Recordo de todos os que estavam lá, do cardápio e até do vinho que tomaram”, exibindo a boa memória que promete agora usar contra quem o traiu.